Análise ao Comércio Externo 1º Trim 2010
Análise ao Comércio Externo de Equipamento Eléctrico e Electrónico
Janeiro – Março 2010
Recuperação acentuada da Exportação
- Análise global
Depois de um ano em que registou uma quebra de cerca de 40% a Exportação está de volta ao crescimento. E de que maneira. Uma recuperação de 43% no 1º trimestre de 2010 face a nível trimestre homólogo de 2009, embora o valor absoluto da Exportação do 1º trimestre de 2010 ainda seja inferior em 17% ao de período homólogo de 2008. Se a intensidade da retoma se mantiver, o nível de Exportação poderá chegar ao final do ano de 2010 apenas um pouco abaixo do nível de 2008. Mas colocamos algumas dúvidas quanto à manutenção do ritmo exportador actual. Por exemplo: um dos subsectores que mais cresceu neste período, Electrónica de Consumo (muito dependente do mercado Automóvel) beneficiou do substancial acréscimo da Procura de Automóveis na Europa, gerado pelo pacote de incentivos públicos - monetários e fiscais - à troca de automóveis velhos por novos. No entanto, dadas as crescentes restrições à despesa pública dos Estados da U E, o mais provável é estes incentivos perderem intensidade ao longo do ano intensidade, senão mesmo desaparecerem. Outro aspecto importante foi a Destockagem, ou satisfação da procura à custa da redução de stocks. Isso foi o que ocorreu na maioria dos ramos de actividade ao longo do ano de 2009. Por isso a recomposição dos stocks tem lugar com maior intensidade no 1º trimestre de 2010, devendo perder ritmo ao longo do ano. E, óbviamente, os efeitos de uma política monetária fortemente expansionista, com as taxas de juro directoras práticamente a nível zero, a impulsionar a procura. No entanto o nível das taxas de juro tenderá a subir, e isso já está acontecer nos mercados de Dívida Pública para os países com maior grau de endividamento. Por outro lado, no mercado de Dívida Privada, para além de uma quase secagem do mercado interbancário, as taxas de juro já mostram tendência ascendente.
A Importação ainda continua no vermelho, embora tenha decrescido substancialmente o ritmo de quebra. Verifica-se aliás que é em duas das suas principais actividades que continua a existir baixa significativa da importação, porque as restantes registam crescimento significativo.
2. Balança Comercial Portuguesa
O Comércio Externo Português está também no caminho da retoma, embora de menor amplitude que no ramo eléctrico e electrónico. Vejam-se os números comparados dos 1ºs trimestres de 2009 e 2010:
|
Comercio Externo |
Exportação (SAIDAS) |
Importação (ENTRADAS) |
||||
|
2009 |
2010 |
∆ % |
2009 |
2010 |
∆ % |
|
|
TOTAL |
7.411,6 |
8.490,3 |
14,6 |
11.998,3 |
12.908,9 |
7,6 |
|
U E |
5.626,9 |
6.384,5 |
13,5 |
9.549,9 |
9.665,4 |
1,2 |
|
3ºs Países |
1.784,6 |
2.106,1 |
18,0 |
2.448,4 |
3.243,4 |
32,5 |
Fonte: INE – Instituto Nacional de Estatística I.P.
Nota: valores em milhões de Euros
Saliente-se que os números globais da Exportação reflectem crescimento acentuado da Procura na U E e nos 3ºs Países, com maior relevo para estes. Já na Importação, as compras à U E crescem muito pouco, mas as compras a 3ºs. Países sobem acentuadamente. O comércio com 3ºs. Países é dominado pela importação de Petróleo, e, nos anos mais recentes, também, pela exportação de Refinados de Petróleo
Os números relativos a “Combustíveis e Lubrificantes” mostram um acréscimo da Importação de 49% (Petróleo bruto), e um aumento da Exportação de 205% (Refinados). O aumento da Exportação de Refinados do Petróleo explica 24% do acréscimo da Exportação total no trimestre, enquanto o acréscimo da Importação de Petróleo Bruto representa 53% do aumento da Importação total. A razão desta “explosão” no comércio externo de “Combustíveis e Lubrificantes”, deve-se ao facto da Refinaria de Sines ter estado parada para obras no 1º trimestre de 2009, estando a funcionar em pleno um ano depois. Mostra também um aspecto positivo respeitante a Sines: o complexo petroquímico (aproveitando a boa localização estratégica) poderá transformar-se gradualmente em plataforma de importação (Petróleo Bruto) - exportação (Refinados), quando anteriormente funcionava apenas como centro transformador de Petróleo Bruto em Refinados para consumo interno.
- Exportação de Equipamento Eléctrico e Electrónico
A maioria dos ramos de actividade teve comportamento positivo, no entanto destacaremos o ramo “Telecomunicações, Electronica Profissional e Informática” (+ 274%). Aqui, o destaque vai para as “Máquinas Automáticas de Processamento de Dados digitais portáteis, pesando menos de 10 kg [vulgo Computadores Pessoais – Magalhães (?)] que registaram um aumento de 2600% (!) na exportação. Depois os Electrodomésticos (+ 62%), onde tem de se salientar o comportamento no Equipamento de Frio Doméstico (Congeladores - Frigoríficos) e os Fornos de Micro Ondas. Em terceiro lugar no ritmo de crescimento surge o subsector de “Fios e Cabos” (+ 47%), impulsionado pela generalidade da gama de fios e cabos eléctricos para energia, telecomunicações, controle e informática, apenas se podendo destacar os “Outros Condutores Eléctricos de menos de 80 Volts”. A seguir, “Máquinas, Equipamentos e Aparelhagem Industrial” (+ 38%), onde desempenham papel importante: Grupos Electrogéneos a Energia Eólica, Transformadores de Potência (+ 10.000 KVA), Distribuidores e Bobines de Ignição para Automóveis, Aparelhos de Iluminação e Sinalização para Automóveis, e Quadros de Comando Eléctrico/Distribuição para média e alta tensão. Acumuladores e Pilhas (+ 22%) e Aparelhagem Ligeira de Instalação (+ 20%) também registam razoável ritmo de recuperação. O mais importante segmento exportador do Sector, “Electrónica de Consumo” (+ 38%) merece uma referência especial. Sofreu em 2009 a quebra significativa do mercado automóvel, e parece querer emergir da crise. Os Auto – Rádios tiveram uma recuperação de 50% no valor global exportado.
Pela negativa, aquele que foi durante muitos anos o principal ramo de actividade exportador do Sector, chegando a ultrapassar 30% da exportação total: Componentes Electrónicos (- 33%). Como já foi dito ao longo das análises feitas no ano passado, a paragem da principal unidade industrial do sector eléctrico e electrónico (fabricante de Semicondutores), provocou uma redução abrupta das vendas ao exterior desta actividade e do Sector. Anunciando-se a retoma de actividade, depois de redimensionamento e reestruturação daquela unidade fabril, espera-se uma recuperação (ainda que parcial) dos níveis de exportação.
- Importação de Equipamento Eléctrico e Electrónico
A Importação ainda não recuperou do tombo de 2009. No 1º trimestre de 2010 verifica-se um decréscimo de 1% face a período homólogo de 2009. Mas, uma análise às actividades importadoras, mostra que a maioria delas regista recuperação sensível face aos valores do 1º, trimestre de 2009. Apenas duas se situam com valores de importação inferiores aos do ano transacto:
Componentes Electrónicos (- 30%) – o grupo de produtos com maior peso neste segmento, eram os “Outros Circuitos Integrados Electrónicos” / Componentes para montagem dos Semicondutores de Memória, produto de exportação, que, como vimos atrás, sofreu queda abrupta nas vendas ao exterior.
Electrónica de Consumo (- 18%) – aqui o que se pode dizer é que o incremento nas importações da Televisores de grande écran e alta definição não foi suficiente para a forte quebra em todos os outros modelos de televisores, e em produtos como os Outros Aparelhos videofónicos de gravação/reprodução e Outros Discos por Sistemas de Leitura Laser.
Assinale-se, pela positiva, o comportamento de Aparelhagem e Sistemas de Medida, Controle e Automatismo (+ 44%), Fios e Cabos Isolados (+ 41%), Aparelhagem Ligeira de Instalação (+ 15%), e, em menor grau, de Máquinas, Aparelhos e Equipamentos Industriais (+ 16%) e Electrodomésticos (+ 9%).
Julgamos que o caminho da Importação ao longo de 2010 vai ser o de alguma recuperação, em sintonia com a evolução da Economia Portuguesa e do Sector industrial eléctrico e electrónico.
- Exportação por Zonas Económicas e Países Clientes da U E
A U E (+ 67%) subiu 9 pontos percentuais a sua quota na exportação total (passou de 67% para 76% o seu market share), em detrimento do Sudeste Asiático (- 39%) e dos PALOPS (- 12%). No Sudeste Asiático a quebra deveu-se ao decréscimo acentuado na exportação de Semicondutores, por motivos sobejamente apontados. Em África, registou-se crise de liquidez na economia angolana, que implicou elevados atrasos no pagamento da exportação portuguesa, originando dois pedidos de empréstimo de Angola ao FMI. Tudo isto implicou uma quebra acentuada nas vendas aquele país. Os EU América melhoraram em termos absolutos, mas em termos de parcela de mercado a sua posição não melhorou, até regrediu ligeiramente.
Por Países Clientes da U E refira-se o comportamento da Espanha (+ 25%), melhor na retoma que a Alemanha (+ 21%), reforçando a condição de 1º mercado da U E para a exportação eléctrica e electrónica portuguesa. Depois, França (+ 64%), Reino Unido (+ 70%), Itália (+ 74%) recuperaram bem, mas de níveis de exportação muito baixos em 2009. Nos pequenos países, é de salientar o bom comportamento da Holanda (+ 353% e 4º mercado da U E no 1º trimestre de 2010), Polónia (+ 174%) e República Checa (+ 98%).
- Importação por Zonas Económicas e Países Fornecedores da U E
Na Importação, a U E (80% da Importação total) baixou 4 pontos percentuais, mas ainda é, de longe, o maior fornecedor. Melhoria de 2 pontos percentuais do Sudeste Asiático (de 10% para 12%), que terá sido devida ao bom comportamento de países como Taiwan, China, Coreia do Sul e Filipinas. Continuamos a dizer que as restantes Zonas Económicas/Países: EFTA; Restantes Países; EUA e Japão - práticamente não contam. Todos somados, não ultrapassam 8% da Importação total. O valor da importação do Japão foi ultrapassado pelos da China, Coreia do Sul e Taiwan.
Por Países Fornecedores da U E, a Espanha (+ 3%) cimentou a 1ª posição como fornecedor do nosso país, enquanto a Alemanha (- 32%) manteve a tendência de quebra do ano anterior. A Espanha distancia-se novamente ultrapassando em 48% (1º trim. 2010) a exportação Alemã. França (+ 10%), Reino Unido (+ 46%), Itália (+ 10%), Holanda (+ 15%), tiveram incrementos em termos relativos superiores, e subiram por isso as suas parcelas do mercado português. Realce para a Holanda que se assume como o 3º país fornecedor do mercado eléctrico e electrónico português. Nos pequenos países, Hungria (+ 12%) e Polónia (+ 32%) tiveram crescimento muito acima da média.
- Perspectivas
Será difícil manter o ritmo de recuperação da Exportação do 1º trimestre de 2010. O crescimento económico da U E, principal mercado de destino da Exportação eléctrica e electrónica, prevê-se seja pouco superior a 1%. Eis o quadro previsional para 2010/2011:
|
Zonas Económicas/Países |
2010 |
2011 |
|
U E – Zona Euro |
1,1% |
1,3% |
|
Alemanha |
1,7% |
1,6% |
|
Espanha |
- 0,4% |
0,6% |
|
França |
1,4% |
1,4% |
Nestes dois anos, o crescimento do PIB da Zona Euro vai ser pouco superior a 1%. E atente-se a que a Alemanha vai ficar nítidamente acima da média, “puxando” a média de crescimento europeu para cima. Sabe-se as razões que deverão impedir os países europeus de conseguirem melhores taxas de crescimento:
- O elevado nível de endividamento, privado e público, ou seja dos Estados e da Banca.
Facto é que os investidores estão desconfiados da solvabilidade de grande número de Estados – membros da U E, sobretudo dos mais endividados, ou com maiores Défices Públicos. Portanto, numa 1ª fase, os Estados mais endividados terão de pagar juros mais elevados pelas dívidas que contraem. Mas, se os Défices persistirem a nível elevado, poderão mesmo defrontar-se com financiamento insuficiente. Já no mercado de Dívida Privada (bancária, fundamentalmente) o problema é análogo: desconfiança entre os Bancos, que práticamente secou o mercado interbancário; desconfiança dos investidores face à Banca, com o mesmo efeito de agravamento futuro das taxas de juro. Crédito mais caro e difícil, redução da Procura e do crescimento.
- Os elevados níveis de Défice Público da maioria dos países europeus, obrigá-los á forte contenção da Despesa Pública e aumento de Impostos.
Grande número de países irá pôr em prática planos de forte redução dos Défices Públicos. No nosso país, esses planos assumem o nome de PECs. Esses planos, contêm redução da Despesa Pública e aumento de Impostos. Tudo somado, isso implicará redução da Procura e efeitos negativos no crescimento económico.
- A melhoria económica sentida no 1º trimestre de 2010, tem características conjunturais e fraca base de sustentabilidade
Reiterando o afirmado no início desta análise: a recuperação acentuada registada no 1º trimestre de 2010, tem a ver com três factores fundamentais: programas de estímulos governamentais à Procura que irão desvanecer-se ou desaparecer ao longo de 2010; recomposição de stocks; política monetária fortemente expansionista, com taxas de juro a níveis insustentáveis.
Um exemplo concreto: a troca de automóveis velhos por novos, fortemente estimulada em quase toda a Europa, está a chegar ao fim. A venda de Automóveis Novos na U E, que tinha subido no 1º trimestre de 2010 face a período homólogo de 2009, registou já descidas nos meses de Abril e Maio, atribuíveis ao fim dos esquemas de incentivos.
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Junho de 2010
Allegro de Magalhães
ANIMEE – Serviço de Economia